Por Leo Nunes.
Classificado como excelente funcionário devido o comportamento exemplar e raro, Anacleto trabalhava numa repartição pública, no centro do Rio de Janeiro, próximo a sua humilde residência. Carioca, de família simples e íntegra, solteiro e respeitador, tinha qualidades de um jovem de boa índole.
Numa segunda-feira de julho, Anacleto, como todo santo dia, chegou à lida de prontidão antes de todos seus colegas de trabalho. Tomou sua xícara de café bem adocicada, duas ou três bolachas sem manteiga e meia pêra que vinha embrulhada de casa em papel laminado. Sentou-se à mesa, separou alguns papéis, preparou a máquina de escrever e a calculadora, segregou algumas coisas cujo destino era o lixo e começou a sua diária concentração.
Por volta das oito e trinta da manhã, o murmúrio entre os outros funcionários era intenso, no qual o desconcentrava e chamava a atenção de Anacleto, que se levantou e foi ver de perto o motivo de tanta agitação. Chegando a sala ao lado, deparou-se com um estagiário que não sabia se carregava uma pilha de documentos ou se olhava para o fundo do ambiente, precisamente na direção de uma jovem que estava sendo entrevistada pelo chefe da repartição. Anacleto congelara quando fixou seu olhar nos olhos verdes da moça que pareciam esmeraldas virgens, nunca exploradas antes por nenhum garimpeiro, cuja reação fora retirar os óculos e com a boca entreaberta virou o corpo a noventa graus e voltou-se para sua mesa, totalmente desligado do lugar onde estava. Pela primeira vez, ele sentiu algo tão vigoroso em sua juventude.
No dia seguinte, Anacleto chegou à repartição mais cedo do que de costume. Não tomou o café, não comeu as bolachas, e nem mesmo trouxe sua meia banda da fruta predileta. Ingeriu somente um copo d’água. Nem se aproximou de sua mesa. Ficou a espera da visão que teve no dia anterior. Ficou sabendo pelos boatos dos companheiros que tal pessoa começaria a trabalhar na repartição com a função de secretária do chefe e que iniciaria no mesmo dia.
Em direção ao banheiro, que ficava próxima à entrada da repartição, o funcionário, até então padrão, inesperadamente, deparou-se com a nova secretária que surgiu ao abrir a porta do elevador. Numa reação relâmpago, Anacleto não permitiu que a jovem saísse e, com um beijo cinematográfico, adentrou-se ao elevador de tal maneira que a moça não teve outra resposta a não ser entregar-se ao fogo que possuía seu admirador. A porta fechou-se. A volúpia abriu-se. O desejo inundou-se. O tempo cessou-se. E foram poucos segundos de uma explosão inimaginável vinda de um vulcão que jamais entrou em erupção. Até que alguém apertou o botão e a porta se abriu exibindo dois corpos seminus e assustados com tal situação. Era o chefe da repartição. Sem remorso e sem piedade, ambos foram demitidos. A jovem tentou justificar a passividade na ação, porém inútil. Anacleto juntou seus pertences e desceu pelo mesmo elevador, que ainda exalava o cheiro do atrito dos corpos em copulação. Ela para um lado, ele para outro. Nunca mais se viram.
Foi a primeira vez que Anacleto teve uma paixão; a primeira vez que teve um contato com uma mulher; a primeira vez que sua reação fugiu da regra do dia-a-dia; a primeira vez que desonrou a família.
Dizem que viram Anacleto num prostíbulo da Lapa, depois de um mês do fato ocorrido. Não se sabe realmente se era ele. Sabe-se apenas que as primeiras vezes são inolvidáveis.
Por Leo Nunes.
Um comentário:
Uau...isso é que se chama "paixão avassaladora"!!!!!!!!!!!!!!
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